Neve: pontos de vista

Não há fenómeno meteorológico que traga mais felicidade do que a neve. As crianças deliram, os adultos perdem a compostura habitual, acompanhando-as na construção de bonecos mais ou menos elaborados, os adolescentes treinam a pontaria em animadas batalhas campais. Nas aldeias, as pessoas repetem que aquela que tem caído “é oiro”, porque sabem que no seu lento derreter a neve vai alimentando nascentes e lençóis freáticos.

Até os animais, normalmente avessos à chuva, saem para fora dos abrigos com outra vitalidade.

Na passada quarta-feira, depois do nevão da noite anterior, também eu saí para a rua, ou antes, para os trilhos entre os bosques ao pé de casa. Em vez de subir aos montes, resolvi embrenhar-me no souto, calcando a neve que se afundava sob os meus passos. Quando parava, o silêncio absoluto, como só acontece nestes dias em que o manto branco abafa todos os ruídos.

Andando ao acaso, acabei por ir parar a um troço do Caminho de Santiago e foi aí que finalmente peguei na câmara, atraída pelo cenário que já vi tantas vezes mas que, naquela manhã, dava ares de um certo mistério, entre a neve e o nevoeiro.

Foi também num souto, posto em sossego entre a névoa e coberto pelo nevão matinal, que passei a tarde de sexta-feira. Desta vez, um pouco mais longe de casa e acompanhada pelo António. Resolvemos dar uma volta de carro, para apreciar a paisagem nas redondezas quando, depois de breve passeio a pé, a chuva voltou. Ele, temerário, saiu mesmo assim. Já eu deixei-me ficar abrigada, fintando a espera a captar as diferentes perspectivas que tinha através das janelas, molhadas pelos pingos da chuva.

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Quem diria que é o mesmo bosque de castanheiros centenários que faz parte de alguns percursos Bétula Tours? O mesmo lugar onde, na primavera e no verão, se dão belos passeios à sombra das copas frondosas e, no outono, se vêm os vibrantes Amanita muscaria, a despontar no tapete dourado de folhas e castanhas.
É outra beleza, a que a neve nos revela. É isso que nos faz felizes, como todas as coisas raras.

 

 

Algarve. Agosto.

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Ora aqui estão duas palavras que nunca pensámos combinar na mesma frase. E se sair de casa em agosto só mesmo quando não havia alternativa (às vezes não havia mesmo), o Algarve foi um destino que nunca esteve nos nossos planos mais remotos. Prova disso foi a incredulidade na voz dos que nos são mais próximos: “Vocês vão para o Algarve? A sério?”.

Na verdade, o destino surgiu por falta de alternativas, no final de um verão em que quase não saímos de casa. Precisávamos de mar, de fugir de casa e da rotina, de conhecer sítios novos. Mas também de um destino que pudesse ser marcado praticamente à última hora, o que punha de parte qualquer viagem de avião. Contornar a rotina era também rumar a sul e não a norte, como sempre fizemos. Provar outra gastronomia, atravessar novas paisagens, mostrar aos garotos uma parte do país que desconhecem.

Mesmo assim foi com algum receio que partimos. A última viagem ao Algarve tinha sido de raspão, num pacato mês de junho, e não houve nada que nos convencesse. A tepidez das águas e a beleza de algumas praias não nos faziam esquecer os outdoors a anunciar supermercados e lojas de todo o tipo, mal se entra em território algarvio, o urbanismo caótico, o trânsito na tenebrosa N125, os resorts chiques ou populares, a rivalizarem em mau gosto e pretensiosismo. E depois ainda o que líamos ou ouvíamos: as lutas por uns parcos metros de areia livre ou um lugar de estacionamento, as filas em todo o lado, os preços inflacionados, o facto do Algarve estar na moda (alguma vez deixou de estar?), a lotação quase a 100%.

Com o misto de sorte, de pesquisa e de intuição que nos caracteriza (mais uma boa dose de sexto sentido feminino, há que puxar a brasa à sardinha de quem escreve estas linhas), dois dias depois de chegarmos já as expectativas tinham sido superadas a 300%.
O carro estacionado à porta do alojamento continuou assim durante 4 dias, enquanto a pé, de barco, de comboio, de caiaque, explorávamos as redondezas.
Praias maravilhosas só para nós e mais meia dúzia de famílias, sem vigilância, mas também sem esplanadas, sem espreguiçadeiras nem guarda-sóis de palha, sem música ou barulho de geradores, sem vendedores de pastelaria estival – “luxos” de que abdicamos com todo o gosto em troca de um luxo maior: tranquilidade e silêncio.

Uma bonita aldeia de pescadores que ao fim da tarde trazem as cadeiras para a rua, para uns dedos de conversa, onde o edifício mais alto ainda é torre da igreja, e sobre a qual alguns turistas diziam, em tom de crítica, que “não tinha nada, nenhum bar ou discoteca” – o derradeiro argumento, que nos convenceu ser este o lugar ideal.

Passeámos nas salinas ao entardecer, vendo os flamingos a chegar ou a partir. Comemos gelados deliciosos em ruas que às nove de meia da noite já estavam praticamente desertas, comprámos figos suculentos em pequenas mercearias, provámos iguarias da região em locais cheios de encanto, entrámos na água vezes sem conta. Em resumo, fizemos férias. E aprendemos que há (ainda) outro Algarve, bem melhor até do que aquele que nos é prometido nas revistas.

Se é para repetir? Duvido. Nada nos tira a saudade das praias galegas. Somos, definitivamente, pessoas com os olhos postos a norte.

 

500 passos

 Zero passos: ginjeira do meu quintal a anunciar o outono.

Zero passos: ginjeira do meu quintal a anunciar o outono.


Possivelmente, todos se lembram do jogo “Minha mãe, dá licença?”, a que se seguia a pergunta “Quantos passos?”.
Como a mãe aqui sou eu, dei-me licença para o jogar sozinha, de uma forma diferente. O desafio é fotografar tudo o que encontro num raio de 500 passos a partir do meu quintal. Porque, onde quer que eu vá, seja em direção ao miolo da aldeia ou ao topo dos montes, há sempre algo novo para registar: um novo ângulo, a mudança desencadeada pelo lento desenrolar das estações, a luz que tudo transforma, algo que foi acrescentado ou destruído, o que se mantém imutável através do tempo.

Quinhentos passos, contados com a exatidão possível do pedómetro, traçam o limite para o desafio ser maior: o de mostrar todo o universo possível neste pequeno espaço. Aos poucos, quero ir contando a história da aldeia, das pessoas, das hortas habitadas e das casas em ruínas, da paisagem em constante mutação.

É um trabalho que irá surgindo, ao ritmo do tempo e da vontade, mas que me fará olhar as coisas com outra perspectiva, ir ao encontro tanto das novidades como das pedras gastas e assim procurar o fio condutor que ajude a tricotar esta ideia.

Para já, ficam as imagens captadas nas últimas duas semanas, enquanto o outono se vai instalando, lentamente, passo a passo.

 O mesmo freixo; várias perspetivas.

O mesmo freixo; várias perspetivas.

 Não são resquícios de Halloween nem marcas de bruxaria; são as marcações dos limites da freguesia.

Não são resquícios de Halloween nem marcas de bruxaria; são as marcações dos limites da freguesia.

Latvija

“Tem cuidado com o que desejas” - durante dias carreguei a frase, num misto de culpa e alegria. O marido, atento aos meus pedidos, tinha-me oferecido uma viagem. Ou antes, uma cilada. Porque isto de nos darem o mundo pode ser tão ilusório como nos prometerem a lua.
“Escolhe um sítio passar as férias da Páscoa, sozinha ou em família” – a prenda, sem embrulhos nem laços, foi lançada durante uma pausa para o café. Vinha acompanhada de um discurso sobre a minha necessidade de descansar, mas também de arejar, mudar de vistas.

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Parte da questão ficou resolvida na hora. Porque, se muitas vezes reclamo e sonho com dias de absoluta liberdade, não me passa pela cabeça fazer férias sem o resto da família; pelo contrário, quero viajar o mais possível com os meus filhos, enquanto não voam do ninho com outras companhias.

Mas a escolha do destino revelou-se tão difícil como estar perante um bufete de sobremesas. Não é que faltassem ideias, mas se umas encalhavam na distância e no orçamento, outras iam sendo abandonadas por razões várias. Houve uma altura em que, cansada de aventar e descartar hipóteses, pensei desistir. Já quase tinha deixado de pensar nisso, quando acordei uma manhã com uma palavra na cabeça: Riga.

“Porquê Riga?”, perguntou a minha filha, quando dias depois lhes comunicámos o próximo destino. “Porque não?”, respondi. A verdade é que, se há muito tinha tido vontade de conhecer os países bálticos, nunca me tinha debruçado sobre um em particular e pouco sabia, além de algumas leituras dispersas.

Mas quanto mais investigava sobre a Letónia, mais entusiasmada ficava. Além de ser um destino novo para todos, agradava-me a descrição de uma capital que mistura influências europeias com traços da cultura soviética, económica q.b., turística q.b.. Fiquei cheia de vontade de provar seiva de bétula, kvass (refrigerante feito de pão fermentado) e os queijos apetitosos que via nas fotografias. Fiz planos para visitar as igrejas ortodoxas, descansar em cafezinhos acolhedores, passear pelos quarteirões com casas em madeira, perder-me nas vielas medievais de Riga.

Depois de reservados os bilhetes, fiz figas para que a neve se mantivesse até finais de março, para que os miúdos pudessem experimentar snowboard ou esqui nórdico no Parque Nacional de Gauja. Entretanto, aprendi que, na Páscoa, os letões usam baloiços porque acreditam que isso os impede de serem picados pelos mosquitos durante o verão. Soube que 40% da área do país é constituída por floresta, vi imagens belíssimas do outono, desejei voltar lá ainda antes de ter partido.

Quebrei a promessa de ficarmos alojados bem no centro, depois de me apaixonar por um apartamento na margem esquerda do rio, no meio de ruas decadentes, casas de madeira em ruínas, junto a um mercado onde o tempo parece ter parado nos anos 70, senão antes.

 O nosso refúgio. Decadente por fora...

O nosso refúgio. Decadente por fora...

 ... cheio de charme por dentro.

... cheio de charme por dentro.

Hoje, de regresso a casa, sei que os desejos se cumpriram. Tivemos seis dias sem chuva, mas a sorte de ver cair alguns flocos de neve. Visitámos igrejas, cafés e mercados. Fizemos snowboard e esqui, cruzámos bosques e rios de bicicleta. Provámos tudo de que tínhamos ouvido falar, adorámos o bairro onde ficámos, experimentámos toda a simpatia e frieza de que os letões são capazes.

Uma viagem perfeita? Claro que não, mas se assim fosse também não tinha graça nenhuma. Desta forma fica sempre a vontade de regressar.

 

 

Mandem-me passear

Copenhaga, 21 de dezembro, 2014. No dia mais curto do ano, a escuridão e uma chuva sem tréguas empurrou-nos para dentro de portas mais cedo do que o habitual. Aproveitando para desfrutar a casa acolhedora (viva o airbnb!), e imbuídos de espírito nórdico, acendemos a salamandra, espalhámos velas pela sala e bolinhos pela mesa, enquanto aquecíamos leite com chocolate e glögg (vinho com especiarias).
Pela janela víamos luzes natalícias a iluminarem jardins e o interior das casas, e admirávamos o frenesim silencioso de bicicletas em hora de ponta.

Foi então, a meio da conversa, que pedi atenção aos meus filhos para ouvirem um conselho importante, aquele que deveriam reter para o resto da vida se só pudessem guardar um aviso feito por mim. Fez-se silêncio enquanto aguardavam a revelação.

“Sempre que me virem irritada, triste, esgotada... mandem-me passear.”
“Se eu gritar, mandem-me passear. Se perder a paciência... mandem-me passear. Se estiver num canto, calada e cansada... mandem-me passar. Arranjem-me um bilhete de avião, de autocarro, tirem-me de casa. Prometo que farei o mesmo com cada um de vocês. Hei de mandar-vos passear sempre que puder. Porque esse é o remédio mais eficaz que conheço."
É claro que nos minutos, horas e dias seguintes passei a ouvir com muita frequência, “Mãe... vai passear", com um sorriso cúmplice e malandro.

Brincadeiras à parte, a verdade é que tenho consciência de que somos todos mais felizes quando estamos fora de casa. Mais unidos como família, como pais, como irmãos. Conversamos mais, aprendemos mais uns sobre os outros, rimos mais, construímos pontes e cumplicidades, inventamos jogos, criamos memórias.

Mesmo antes das crianças nascerem foi sempre em viagem que tomámos as grandes decisões da nossa vida: mudar de emprego e de vida, ter filhos, fazer uma viagem longa, avançar com este ou aquele projeto. Fora de casa e das rotinas, a mente fica mais solta e as ideias mais límpidas. Por isso as nossas reuniões de trabalho são sempre ao ar livre; dantes a caminhar junto ao mar, agora a deambular pelos bosques.


No singular ou no plural, a cada dia sinto uma maior urgência de conjugar o verbo passear. Seja viajar para destinos distantes, sair para uma incursão de poucos dias ou descobrir um novo trilho na vizinhança.
Querem ver-me feliz? Mandem-me passear.

Quanto à prole, subscrevo na íntegra as palavras de José Luís Peixoto: “Aquilo que quero deixar aos meus filhos são viagens. Como outros acumulam imobiliário e bens, quero que sejam capazes de acumular momentos e lugares onde estivemos vivos e juntos. Essa será a fortuna que partilharemos”.