Neve: pontos de vista

Não há fenómeno meteorológico que traga mais felicidade do que a neve. As crianças deliram, os adultos perdem a compostura habitual, acompanhando-as na construção de bonecos mais ou menos elaborados, os adolescentes treinam a pontaria em animadas batalhas campais. Nas aldeias, as pessoas repetem que aquela que tem caído “é oiro”, porque sabem que no seu lento derreter a neve vai alimentando nascentes e lençóis freáticos.

Até os animais, normalmente avessos à chuva, saem para fora dos abrigos com outra vitalidade.

Na passada quarta-feira, depois do nevão da noite anterior, também eu saí para a rua, ou antes, para os trilhos entre os bosques ao pé de casa. Em vez de subir aos montes, resolvi embrenhar-me no souto, calcando a neve que se afundava sob os meus passos. Quando parava, o silêncio absoluto, como só acontece nestes dias em que o manto branco abafa todos os ruídos.

Andando ao acaso, acabei por ir parar a um troço do Caminho de Santiago e foi aí que finalmente peguei na câmara, atraída pelo cenário que já vi tantas vezes mas que, naquela manhã, dava ares de um certo mistério, entre a neve e o nevoeiro.

Foi também num souto, posto em sossego entre a névoa e coberto pelo nevão matinal, que passei a tarde de sexta-feira. Desta vez, um pouco mais longe de casa e acompanhada pelo António. Resolvemos dar uma volta de carro, para apreciar a paisagem nas redondezas quando, depois de breve passeio a pé, a chuva voltou. Ele, temerário, saiu mesmo assim. Já eu deixei-me ficar abrigada, fintando a espera a captar as diferentes perspectivas que tinha através das janelas, molhadas pelos pingos da chuva.

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Quem diria que é o mesmo bosque de castanheiros centenários que faz parte de alguns percursos Bétula Tours? O mesmo lugar onde, na primavera e no verão, se dão belos passeios à sombra das copas frondosas e, no outono, se vêm os vibrantes Amanita muscaria, a despontar no tapete dourado de folhas e castanhas.
É outra beleza, a que a neve nos revela. É isso que nos faz felizes, como todas as coisas raras.

 

 

Bétula: plantámos uma no Nordeste Transmontano

Ser freelance é isto mesmo: não ficar quieto, adaptar-se, saber reinventar-se. Em boa verdade, a inconstância está para o freelance como a estepe está para o nómada mongol: é a essência do seu modo de vida.

Quando dei início à atividade de repórter, há quase 21 anos, fi-lo precisamente nessa qualidade, assumindo a imprevisibilidade inerente à ausência de um vínculo contratual com uma entidade empregadora/pagadora – um rendimento regular, portanto. Na altura, o mundo editorial crescia de forma tão vigorosa que até achámos boa ideia fazer isto a dois; e assim, (em boa hora, há que dizer) a Ana saltou para o mesmo barco... um barco sem GPS, sem sondas, sem radar - um barco onde apenas se podia navegar à vista.

Anos mais tarde, valeu-nos a experiência de centenas de reportagens entretanto publicadas para dar início a uma nova fase: a partilha de conhecimentos através da realização de workshops e passeios fotográficos. Vivia-se então o boom da fotografia digital, com uma procura inédita de experiência – e experiências – nesta área.

A mudança para Bragança, em 2010, manteve o registo formativo e lúdico dessas atividades, mas também abriu a porta a projetos fotográficos e editoriais de outra envergadura... e a vontade de fazer cada vez mais atividades ligadas à região.

E assim nasceram, mais recentemente, os passeios Saída à Medida: variados, personalizados e adaptados à sazonalidade vincada que aqui se faz sentir. Já não nos dirigimos apenas aos que gostam de fotografia, mas a todos aqueles que apreciam a vida ao ar livre e procuram uma experiência mais profunda e enriquecedora - “casais, famílias ou amigos, apaixonados pela natureza e pela vida selvagem, por uma caminhada na neve ou um simples mergulho em águas límpidas”,  tal como anunciamos nos postais promocionais, cujas faces podem ver ao longo deste post.

Achamos, por isso, que é altura de separar o que será sempre inseparável: o fotógrafo António Sá e a autora de textos Ana Pedrosa – que continuarão a existir como tal – das atividades mais vocacionadas para o turismo da natureza, como são as Saídas à Medida e outras que entretanto estamos a preparar. A partir de agora, estas últimas aparecerão sob o nome BÉTULA (marca registada no INPI), com uma identidade gráfica criada pelo reconhecido atelier R2 Design, dos nossos amigos Artur Rebelo e Lizá Ramalho.

Mas bétula é, antes de tudo, uma árvore.
Uma árvore esbelta, de silhueta simples, depurada, com a particularidade de apresentar um tronco branco com tracinhos escuros e uma roupagem distintamente bela em cada uma das estações do ano.

As bétulas têm uma aparência delicada mas são muito resistentes; são árvores de altitude, dão-se bem com a neve e o frio das montanhas, e gostam das latitudes setentrionais ainda acima do círculo polar ártico, até onde a tundra não as deixa mais seguir caminho – nem a qualquer outra árvore, de resto. As bétulas existem em Montalegre, em Montesinho, aqui ao lado em Sanábria, na Islândia e na Noruega, onde se chamam bjørk – que é também uma voz que gostamos desde o tempo dos Sugar Cubes. Elas povoam os sítios que mais nos inspiram - da nossa imaginação ao nosso jardim.  

BÉTULA simboliza o espírito que procuramos incutir na nossa própria vida e naquilo que fazemos: simplicidade, tenacidade, sazonalidade.

E agora que a plantámos, queremos partilhar o seu crescimento e multiplicação com todos aqueles que procuram as coisas boas da vida.

Porque melhor que uma bela árvore... é um bosque inteiro a perder de vista. 

Ode ao inverno

Todos os invernos regresso a Sanábria.
Ou talvez sejam os invernos de Sanábria que regressam a mim.

Há algo de profundamente belo naquelas montanhas. Como se a alma dos glaciares há milhares de anos desaparecidos perdurasse no vento gélido que varre as encostas - e em toda a neve que as transfigura da noite para o dia.
Atravessar a brancura com vento forte e o gelo a fustigar a cara é uma boa forma de sentirmos na pele este pedaço de norte, que nalguns dias parece querer imitar o ártico. Não se percebe onde acaba a montanha e começa o céu; é tudo um grande lençol indistinto, sem sombras nem escala, sem tempo nem distância. Uma redoma invisível, capaz de nos isolar do resto do mundo mesmo quando estamos acompanhados. Ou assim o sinto.

Mais abaixo, no fundo do vale, o lago.
É o testemunho líquido da antiga massa de gelo, mas com um temperamento mais inconstante, ditado pela ventisca, a corrente de ar lancinante que tem o raro dom de poder soprar na vertical... ou quase.
Em dias assim, as ondas encrespadas estalam repetidamente nos amieiros e no granito da praia, antes de serenarem na fluidez do Tera, que se escapa daqui num murmúrio distante, abafado pelos carvalhais.

Em ambas as margens acompanham-no quase sempre caminhos, talhados no solo por pescadores, pastores ou mais pesados tratores. E neles surgem ervas despenteadas, poças encharcadas e tufos de cristas douradas. 

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E depois disto, as aldeias: escassas, desertas, ligadas por estradas ainda mais escassas e mais desertas. E tanto pior quando os aguaceiros de inverno se abatem nestas terras... como em San Ciprián, no final do caminho. Ou em Escuredo, a meio caminho de lado nenhum. Os dois últimos habitantes abandonaram-na há igual número de anos. Ficou um gato, que guardei em fotos. 
Estrada fora, já do outro lado da montanha, Truchilas segue-lhe a sina. E mais adiante será Truchas, onde a gasolinera serve agora de bar, loja e centro social.

Tomo um solo, corto, bem quente. Quatro homens jogam às cartas.
Parte da estrada tinha neve. E está frio lá fora. Ninguém sabe se se passa para Ponferrada. O limpa-neves já não passa aí. E as ruas estão vazias. E a reta para Castrocontrigo também.
Parece um filme, algures entre a poesia de Malick e o insólito dos Coen.

É o Inverno em Sanábria.
Como se num sonho eu vagueasse.

Adenda: No início de fevereiro, levei um grupo de fotógrafos para conhecerem a região. O seu olhar sobre a região pode ser visto aqui.

Grande Pássaro de Ferro Volta aos Territórios do Norte

Alguma vez sentiu que em muito pouco tempo e distância viajou a uma realidade completamente diferente?
O caso mais marcante que me aconteceu foi precisamente numa viagem de avião entre Lisboa e Bragança, no inverno de 2011 (a foto acima foi captada nesse mesmo voo). Em apenas 80 minutos passei dos 15ºC de uma soalheira Lisboa à aterragem pouco acima dos 0ºC, entre as montanhas nevadas do Nordeste Transmontano. Para quem gosta da adrenalina própria dos Great Outdoors - como chamam os britânicos a tudo que fica para norte da Muralha de Adriano - não há melhor elixir.
As nuances do nevoeiro a revelar ou a esconder uma paisagem misteriosa. Imensos carvalhais cobertos de líquenes. O murmurar distante de uma queda-de-água. Flocos gelados que nos beliscam a cara.

Estar vivo é isto.
Não podemos parar o tempo, nem fazê-lo andar mais devagar, mas estes momentos são os que mais se aproximam dessa ideia.
No momento em que escrevo estas linhas, estão 2ºC aqui em Bragança e uma chuva com gelo à mistura. Em Lisboa, a realidade é de 12ºC e céu pouco nublado. Se me meter no carro durante 15 minutos, até à serra da Nogueira, sei que estará a nevar... e o mesmo em Sanábria, com mais uns 45 minutos de viagem.

O silêncio... o bosque... a neve. O tempo parou.

O silêncio... o bosque... a neve. O tempo parou.

Não é o Alasca, nem a Noruega, mas nesta região também há lobos, ursos, veados, bosques, rios e montanhas. É o nosso próprio Grande Norte... igualmente belo e surpreendente, mas bem mais fácil de alcançar, agora também de avião desde o extremo sul de Portugal.

Em 2016 desejamos, por isso, mais descobertas, mais aventuras... mais tempo de qualidade.
Se pudermos ajudar no objetivo, tanto melhor.
Encontre as nossas propostas em AGENDA e TOURS neste mesmo site.
aqui ficam também os horários de voos.

Bom Ano!

Serra da Nogueira, ontem cerca das 12h00. Ambas imagens com Fuji X-10.

Serra da Nogueira, ontem cerca das 12h00. Ambas imagens com Fuji X-10.

Sinergias Renováveis

Imagem obtida com uma compacta Fuji X-10, deslocando-a num movimento vertical com velocidade de obturador lenta.

Imagem obtida com uma compacta Fuji X-10, deslocando-a num movimento vertical com velocidade de obturador lenta.

Agora que o Natal está aí à porta, e no cabaz de presentes surgirão seguramente ideias de câmaras fotográficas, objetivas ou qualquer outro equipamento relacionado com a imagem, importa repensar aquilo que fazemos com estas fantásticas ferramentas.

Da minha experiência nos passeios fotográficos e nos workshops, continuo a verificar, com certa pena, que o equipamento é ainda uma barreira limitadora para muitas pessoas. Muitas vezes, não há nada de errado com a câmara, nem tão-pouco com o fotógrafo; é apenas uma daquelas situações em que o diálogo entre um e outro não acontece porque a escolha da câmara não foi a melhor ou porque o fotógrafo não dedicou tempo suficiente a conhecer o seu funcionamento. E como sem diálogo não há magia, os resultados teimam em ficar aquém das expectativas.
Mas as boas surpresas também acontecem. Quando um grupo de pessoas com o mesmo gosto pela fotografia se junta num local inspirador, há uma espécie de energia positiva que propicia os resultados – mesmo por parte daqueles que não estavam à espera de ver algo extraordinário aparecer no ecrã da sua máquina. Isto não tem nada de místico... mais do que energia, é sinergia.

A beleza da criatividade: um dos participantes faz uma fotografia sobre a mesma rocha que serviu de primeiro plano à imagem de outro fotógrafo. Esta última pode ser vista nas primeiras páginas do link  Outono em Montesinho , indicado abaixo.

A beleza da criatividade: um dos participantes faz uma fotografia sobre a mesma rocha que serviu de primeiro plano à imagem de outro fotógrafo. Esta última pode ser vista nas primeiras páginas do link Outono em Montesinho, indicado abaixo.

De repente, tudo passa a fazer sentido: as aberturas e as velocidades, o equilíbrio de brancos e a compensação da exposição, a escolha de uma grande-angular, uma macro ou um tripé. E se dúvidas houvesse, vejam a pequena seleção que saiu do último Outono em Montesinho

Se há coisa que me dá prazer nestes passeios, é partilhar com os participantes as minhas últimas descobertas. Raramente me acomodo àquilo que conheço de um certo local, porque estou bem consciente que a novidade é o melhor catalisador da criatividade. Por isso, continuo a achar que vale a pena percorrer uns bons quilómetros nas vésperas de cada passeio, em busca de bons locais e boas oportunidades para depois os dar a conhecer a outros olhares. Cada cogumelo, cada curva de rio, cada lameiro onde o gelo se forma contam para uma fotografia verdadeiramente original – porque não há dois outonos, dois invernos, duas primaveras ou dois verões exatamente iguais.

Descobri este belo bosque num dia de chuva, pouco antes da data do passeio. Para garantir o mesmo tipo de oportunidades, comecei precisamente por esta zona, naquilo que se veio a confirmar como o nosso único dia com luz difusa e alguma chuva.

Descobri este belo bosque num dia de chuva, pouco antes da data do passeio. Para garantir o mesmo tipo de oportunidades, comecei precisamente por esta zona, naquilo que se veio a confirmar como o nosso único dia com luz difusa e alguma chuva.

Em resumo: tudo o que precisa para se sentir realizado na arte fotográfica é uma câmara bem ajustada ao seu estilo – mais ou menos hi-tec, mais ou menos leve - e sítios suficientemente estimulantes para dar asas à criatividade. A primeira parte está sobretudo nas suas mãos; quanto à segunda, prometo continuar a dar uma ajuda.

Veja as próximas propostas no programa de inverno e na agenda.

Feliz Natal e Bom Ano

Saída à medida... redimensionada

Bosques de bétulas povoam as encostas do novo território do urso-pardo - uma das propostas  Saída à Medida  para este outono.

Bosques de bétulas povoam as encostas do novo território do urso-pardo - uma das propostas Saída à Medida para este outono.

Volvidos alguns meses após o lançamento do Saída à Medida, resolvemos fazer alguns ajustes para melhorar esta nossa nova proposta. 

...Continua a ser uma atividade para grupos pequenos.
...Continua também a ter toda a flexibilidade nas datas e nos locais a visitar, desde que no âmbito de Trás-os-Montes e das vizinhas regiões espanholas – uma unidade geográfica agora classificada pela UNESCO como reserva da Biosfera.
...Continua a não se destinar exclusivamente aos amantes da fotografia, embora também o possa ser, se os participantes assim quiserem.

Na Comarca de La Carballeda há aldeias que não chegam aos 20 habitantes

O que mudou, então?
Bem, como tanta liberdade pode chegar a intimidar, resolvemos facilitar a escolha reunindo as melhores propostas para cada estação do ano.

A duração, o conteúdo e os respetivos preços também são diferenciados, mantendo-se a toda a liberdade dos participantes para escolherem qualquer outra versão... à sua medida.

 

 

Em Montesinho, propomos a descoberta de cogumelos com acompanhamento científico e degustação em restaurante especializado (mas não o da imagem)

Em Montesinho, propomos a descoberta de cogumelos com acompanhamento científico e degustação em restaurante especializado (mas não o da imagem)

 

 

 

 

No fundo, o Saída à Medida destina-se a todos os que aspiram conhecer melhor esta fantástica região, de acordo com o seu tempo e interesses específicos.

O Outono está aí.
Dê uma vista de olhos às nossas propostas ou peça-nos para criar uma especialmente para si e para os seus amigos ou família.

Cá estaremos para dar o nosso melhor.

Saiba mais aqui.

Aldeias quase desertas proporcionam uma experiência insólita... e imagens a condizer.

Aldeias quase desertas proporcionam uma experiência insólita... e imagens a condizer.